Eu gosto muito de planejamento estratégico porque ele revela um talento humano extraordinário: transformar medo de decidir em planilha colorida. A empresa começa o trimestre com oito prioridades. Todas “críticas”. Todas “estratégicas”. Todas com dono. A única coisa que falta é prioridade.
Prioridade é uma fila, não um adjetivo
Dizer que algo é prioritário deveria responder o que vem antes do quê. Se produto quer retenção, comercial quer enterprise, marketing quer aquisição e tecnologia quer reescrever a plataforma, talvez todos tenham bons argumentos. O problema não é ter quatro coisas importantes. É fingir que a organização consegue tratá-las como primeira ao mesmo tempo.
Toda prioridade consome alguma coisa escassa: dinheiro, gente, atenção, capacidade de decisão. Se nada foi removido quando uma nova prioridade entrou, ela provavelmente não entrou. Só foi adicionada ao cemitério de intenções.
A pergunta antipática
Quando alguém propõe mais um projeto, pergunte: qual projeto atual perde recurso para este entrar? Essa pergunta tem um efeito mágico. Ideias que eram “essenciais” começam a ficar “interessantes”. Não é maldade. É só a primeira vez que a vontade encontrou um custo real.
Estratégia é uma lista do que fazer, claro. Mas a parte que separa estratégia de catálogo é a lista do que não fazer agora. Sem essa segunda lista, o time recebe autorização para interpretar tudo como urgente e a liderança passa o trimestre apagando incêndios que ela mesma acendeu.
Se tudo é prioridade, vocês não estão sendo ambiciosos. Estão adiando a conversa sobre qual aposta merece ganhar e qual precisa esperar. E esperar, infelizmente, não cabe bem no slide de “roadmap transformacional”.